domingo, 12 de dezembro de 2010

Por dentro da Torah

O pai de Sérgio e Maurício faleceu deixando uma herança para ser dividida igualmente entre os dois. Tudo estava sendo dividido direitinho, meio a meio, até que chegaram na belíssima chanukiá de prata que havia passado de geração em geração em sua família. O valor sentimental para ambos era enorme, e então, na impossibilidade de dividí-la, resolveram realizar um sorteio para decidir quem ficaria com ela. Sérgio foi o contemplado, deixando Maurício muito frustrado e chateado por não ter ganho, já que queria muito a chanukiá. Maurício tinha problemas cardíacos e o médico da família ficou com medo de se agravarem. Vendo o estado em que ficou, dirigiu-se à Sérgio dizendo que Maurício não aparentava estar bem e que por ser cardíaco talvez sua vida estivesse em risco. O médico então pediu ao Sérgio para que 'abrisse mão' da chanukiá e a cedesse para seu irmão, óbviamente recebendo o valor monetário dela em troca. Sérgio procurou seu Rabino e perguntou qual a halachá, a lei, numa situação dessas. Será que ele tinha que fazer como o médico pediu? Por outro lado, esta chanukiá era muito importante para ele também! O fato dele ser uma pessoa saudável e seu irmão não, é motivo para fazê-lo abdicar da chanukiá que ele havia ganho licitamente no sorteio? O que fazer?

O pai de Sérgio e Maurício faleceu deixando uma herança para ser dividida igualmente entre os dois. Tudo estava sendo dividido direitinho, meio a meio, até que chegaram na belíssima chanukiá de prata que havia passado de geração em geração em sua família. O valor sentimental para ambos era enorme, e então, na impossibilidade de dividí-la, resolveram realizar um sorteio para decidir quem ficaria com ela. Sérgio foi o contemplado, deixando Maurício muito frustrado e chateado por não ter ganho, já que queria muito a chanukiá. Maurício tinha problemas cardíacos e o médico da família ficou com medo de se agravarem. Vendo o estado em que ficou, dirigiu-se a Sérgio dizendo que Maurício não aparentava estar bem e que por ser cardíaco talvez sua vida estivesse em risco. O médico então pediu ao Sérgio para que 'abrisse mão' da chanukiá e a cedesse para seu irmão, óbviamente recebendo o valor monetário dela em troca. Sérgio procurou seu Rabino e perguntou qual a halachá, a lei, numa situação dessas. Será que ele tinha que fazer como o médico pediu? Por outro lado, esta chanukiá era muito importante para ele também! O fato dele ser uma pessoa saudável e seu irmão não, é motivo para fazê-lo abdicar da chanukiá que ele havia ganho licitamente no sorteio? O que fazer?

A Guemará (Sanhedrin 75a) tráz o caso de um homem que 'perdeu a cabeça' por uma determinada mulher. Ele ficou tão obcecado por ela que acabou adoecendo. Foram perguntar aos médicos e estes disseram que ele só melhoraria se tivesse relações com ela. Os Sábios disseram que era preferível que ele morresse do que ela vir a ter relações com ele. Então propuseram aos Sábios que ela apenas ficasse nua diante dele e eles responderam dizendo que era preferível que ele morresse à ela ter que ficar nua diante dele. Continuaram insistindo, e propuseram que ela apenas conversasse com ele por detrás de uma cerca, apenas um cumprimento, e mais uma vez os Sábios negaram dizendo ser preferível que ele morresse à ela ter que conversar com ele, mesmo por detrás de uma cerca. Dois Rabinos, Rav Iaacov bar Idi e Rav Shmuel bar Nachmani divergem sobre o motivo da proibição dos Sábios – um diz que o motivo é porque ela era uma mulher casada, enquanto que o outro diz que ela era solteira. A Guemará então diz que é entendível tratar-se de uma mulher casada, porém, pergunta a Guemará, qual o problema com uma mulher solteira? Dois Rabinos dão suas opiniões: Rav Pope diz que o motivo é que a família dela ficaria envergonhada com tudo isso, e Rav Arra brei d'Rav Ika diz que o motivo é para que as Bnót Israel, as mulheres Judias, não sejam vulgarizadas. (Até aqui a Guemará)

Certa vez o Rav Shlomo Sobol trouxe o seguinte caso para o Rabino Iosef Chaim Zonenfeld, que era o Rav de Ierushalaim a cerca de 80 anos atrás: Reuven havia adquirido um raro objeto, possuidor de uma beleza incomparável. Shimon, seu amigo, pediu para dar uma olhada no objeto para apreciar sua beleza também. Reuven, por sua vez, não permitiu. Shimon continuava insistindo todos os dias, porém Reuven mantinha sua negação. Shimon, que era uma pessoa que tinha problemas de saúde, ficou muito magoado com o que estava ocorrendo e acabou adoecendo, entrando numa depressão profunda. A família de Shimon procurou Reuven e pediu-lhe para que deixasse Shimon dar apenas uma espiada rápida no objeto, para que assim ele voltasse ao seu estado normal. No entanto, Reuven continuou impassível, sem dar permissão. A pergunta é a seguinte: Será que o Beit Din, o Tribunal Judaico, poderia obrigar Reuven a mostrar o referido objeto para tirar Shimon dessa depressão?
Rav Sobol disse para o Rav Zonenfeld que achava que sim, e explicou que sua resposta era baseada na referida Guemará de Sanhedrin, que diz que os Rabinos proibiram-na de falar com ele devido à vulgaridade envolvida. Porém, se não tivesse nenhum problema de vulgaridade, seria permitido. No entanto, Rav Zonenfeld não concordou com este raciocínio, dizendo que havia uma diferença entre este caso e o da Guemará. Ele disse que havia um outro problema envolvido neste caso – a proibição de "ló tachmód", de não cobiçar.
A pessoa quer apenas olhar, depois vai querer possuir este objeto também, e por aí vai. A Torá proíbe a cobiça; então por causa de um capricho de Shimon, que está indo contra um mandamento da Torá, vamos 'beneficiar o infrator', e obrigar Reuven a mostrar o objeto para ele?

Outro exemplo: Bóris era um oleh chadash da Rússia; ele mudou-se para Israel, e a primeira coisa que sentiu falta foi da carne de porco. Não encontrava em lugar nenhum e tampouco deixavam importar. Na Rússia ele havia comido carne de porco por toda sua vida, no café, almoço e jantar. Como poderia viver sem isso? Já estava intrinsicamente ligado ao seu corpo! Ele argumentou que para ele era perigo de vida, que se não comesse porco acabaria definhando e morreria. Portanto, pediu aos Rabinos para que abrissem uma exceção e consentissem que ele comesse porco.
Apesar de ser uma mitzvá alimentar alguém necessitado, neste caso é totalmente proibido fazer a vontade de Bóris, pois envolve uma proibição da Torá, que é a de não comer carne de porco. Se fosse uma situação em que um fator externo colocasse a vida da pessoa em risco, como por exemplo, estar no meio do deserto, tendo somente carne de porco para comer, então é permitido ela comer, pois é o único recurso existente para salvar sua vida. Porém, neste caso, Bóris pode muito bem acostumar-se a comer outros tipos de carnes que são permitidas pela Torá. É apenas um problema de trabalhar suas emoções e instintos.

Similarmente, no caso anterior em que Shimon ficou doente apenas por Reuven ter lhe recusado a mostrar um objeto, ele é quem tem que trabalhar suas características pessoais para superar sua curiosidade, inveja e cobiça. Transgredir uma lei da Torá apenas para satisfazer seus caprichos, isto jamais.

Portanto, de acordo com todo o exposto acima, vemos que Sérgio não precisa ceder para Maurício a chanukiá que ganhou licitamente no sorteio realizado por ambos.

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